10 coisas que ninguém te conta sobre fazer um cruzeiro no Brasil

Depois de tantas experiências em cruzeiros pelo mundo, tinha muita curiosidade para saber como seria a dinâmica de fazer um cruzeiro pelo Brasil. A reputação não é das melhores. Em linhas gerais, os comentários sobre cruzeiros no Brasil são desanimadores, com relatos frequentes de filas, logística confusa e má organização. Mas será que a experiência é realmente tão diferente da de outros destinos pelo mundo?

Para descobrir, embarcamos no navio MSC Seaview, da MSC Cruzeiros, em um roteiro pelo Nordeste brasileiro. O itinerário incluía opções de embarque e desembarque em Salvador, Maceió e Santos. A partir desta primeira experiencia em um cruzeiro nacional, reuni algumas impressões e detalhes que ninguém te conta, mas que podem fazer toda a diferença no planejamento da sua viagem.

10 coisas que ninguém te conta sobre fazer um cruzeiro no Brasil

1. Nem todo navio da temporada brasileira vale a pena

Minha principal motivação ao escolher um cruzeiro em qualquer lugar do mundo costuma ser o itinerário. Curiosamente, o passageiro brasileiro não costuma priorizar os destinos e escolhe viajar de cruzeiro com o principal intuito de vivenciar o navio. Na temporada brasileira, infelizmente nos faltam boas opções: somente a MSC e a Costa navegam pelo nosso maravilhoso litoral, que tem tanto potencial, mas pouquíssimo aproveitamento.

A Costa é uma companhia que possui navios mais antigos e, na minha opinião, oferece uma experiência muito aquém do que se espera de uma viagem minimamente confortável.

Já a MSC possui a maior frota de navios de passageiros do mundo e, assim, consegue oferecer itinerários diversificados a valores competitivos. Quando optamos pela MSC, já sabemos que é preciso relevar alguns pontos negativos dos navios e tentamos contornar alguns aspectos que tornam a viagem com a MSC muito distante de uma experiência premium.

Dentro da própria frota da MSC, há diferenças importantes que devem ser consideradas. Nem todos os navios entregam o mesmo nível de experiência. Parte da frota mais antiga — como o MSC Musica, o MSC Divina e o MSC Splendida — ainda conquista admiradores de navios menores e mais intimistas. Na minha percepção, porém, essas embarcações já mostram sinais do tempo: faltam restaurantes de especialidade e outras amenidades presentes nos navios mais modernos.

Essa diferença geracional dentro da frota tem bastante impacto na decisão da escolha do navio na temporada brasileira. Atualmente, considero que apenas o MSC Virtuosa e o MSC Seaview realmente valem a pena para quem deseja ter uma boa experiência em águas brasileiras na temporada 2026/2027.

O MSC Seaview é o segundo navio da classe Seaside, cujo conceito privilegia a aproximação com o mar a partir de diversos pontos da embarcação, inspirado nos condomínios de praia de Miami. O deck da piscina (Panorama Pool) incorpora essa proposta, com proteção de vidro ao redor, vistas permanentes para o mar e espreguiçadeiras desenhadas para criar uma conexão mais imersiva com a paisagem. Conectada ao top deck por dois elevadores panorâmicos, a Sunset Beach Pool oferece vistas totalmente desobstruídas.

O complexo aquático inclui cinco toboáguas, dois deles com loops transparentes, além de um toboágua de 112 metros com luzes e música, que pode ser utilizado individualmente ou em dupla. Há também uma tirolesa instalada no deck superior, atividade cobrada à parte.

Construído em 2018, o MSC Seaview ainda se posiciona como um navio relativamente moderno dentro da frota da MSC e não apresenta sinais evidentes de desgaste.

Durante a temporada brasileira, o MSC Seaview costuma navegar com sua lotação máxima na maioria das saídas, com todas as 2 mil cabines ocupadas.

Já o MSC Virtuosa é um navio ainda mais novo, construído em 2021, que faz parte da classe Meraviglia-Plus. Diferentemente do MSC Seaview, cujo centro do navio é um átrio, os navios da classe do MSC Virtuosa possuem uma promenade coberta por um teto de LED, que projeta diferentes imagens ao longo do dia. A capacidade do MSC Virtuosa também é um pouco maior que a do MSC Seaview, com cerca de 2.400 cabines. Sem dúvida, o MSC Virtuosa representa hoje a melhor opção entre os navios previstos para a temporada brasileira 2026/2027.

2. A animação no Brasil é outro nível

O primeiro grande diferencial de um cruzeiro pelo Brasil, em comparação com outros destinos, é o entretenimento. Cruzeiros com maioria de passageiros latinos são, sem dúvida, mais animados. A energia é diferente: mais intensa, mais espontânea, mais coletiva.

Isso se reflete nas atividades na piscina, sempre mais vibrantes, e nas festas noturnas, que costumam se estender facilmente até as 2 da manhã. Onde há música, há brasileiros cantando a plenos pulmões. Além das festas já tradicionais (como a festa do branco, a festa tropical e as noites temáticas dos anos 70 e 80), a temporada brasileira ainda inclui festa sertaneja, funk, brega, axé e outros ritmos que fazem parte do nosso repertório cultural.

Para mim, nada supera a energia de um cruzeiro que fiz saindo de Cartagena, na Colômbia, com a extinta companhia espanhola all-inclusive Pullmantur. Ainda assim, posso dizer que um cruzeiro com brasileiros é o que mais perto chegou daquela atmosfera.

Outra diferença que me chamou atenção foi o estilo dos passageiros à noite. Diferentemente do que acontece em outras regiões, os brasileiros não costumam se produzir tanto para o jantar ou para a noite de gala. O clima é bem mais descontraído, e a maioria das pessoas está completamente à vontade, inclusive nas ocasiões mais formais. Conversando com um funcionário do salão de beleza, ele comentou que, em outros mercados, a noite de gala transforma o salão em um verdadeiro centro de preparação, com todos os horários de cabelo e maquiagem disputados. No Brasil, porém, é praticamente uma noite como outra qualquer. Ou seja, não há necessidade de exagerar na mala com roupas muito sofisticadas.

3. Se você viaja com filhos, este pode ser o maior diferencial do Brasil

Um dos aspectos que mais me surpreendeu, superando qualquer outro cruzeiro que já fiz, foi o clube infantil. Em experiências anteriores com a MSC, os horários eram bastante limitados, exigiam reserva prévia e ainda estavam sujeitos à lotação máxima. Não foi o caso no MSC Seaview no Brasil. O clube funcionava das 9h às 23h, sem limite de tempo de permanência para as crianças.

Outro diferencial importante é que toda a equipe era formada por animadores brasileiros, o que facilita muito a comunicação e a integração das crianças nas atividades. Em cruzeiros internacionais, é fundamental que seu filho fale inglês para aproveitar plenamente a programação.

As atividades monitoradas eram variadas e bem organizadas, com destaque para o MasterChef At Sea Juniors, uma das experiências mais aguardadas pelos pequenos.

4. Não espere atendimento totalmente em português

Ao navegar pelo Brasil, as companhias de cruzeiro precisam se adequar à exigência do governo brasileiro de que 25% da tripulação seja composta por profissionais locais. Na prática, isso significa que uma parte significativa da equipe que mantém contato direto com os passageiros fala português — especialmente os animadores e os profissionais do clube infantil.

No entanto, não espere que todos os garçons, bartenders, funcionários do spa ou da equipe de limpeza da cabine consigam se comunicar em português. A tripulação-base do navio, que normalmente vem das Filipinas e da Índia, continua atuando durante a temporada brasileira.

São eles, inclusive, os responsáveis pelo serviço de hotelaria, pela limpeza e manutenção das cabines (que, por sinal, foi impecável nesta viagem: duas vezes por dia a cabine era arrumada e, todas as manhãs, a roupa de cama era trocada).

5. A experiência gastronômica pode ser frustrante — a menos que você pague à parte

O MSC Seaview no Brasil conta com uma longa lista de problemas já consolidados dos navios da MSC, independentemente de onde navegam. Para mim, o mais grave deles é a alimentação, principalmente nos restaurantes dos salões principais Golden Sand e Silver Dolphin (seja café da manhã, almoço ou jantar). Para mim, é sempre uma experiência frustrante, e desta vez não foi diferente. Tentamos dar uma chance na noite do capitão, que costuma ter um menu um pouco mais elaborado. Mas era igualmente péssimo.

Não costumo visitar o buffet, por achar o local sempre cheio demais, mas, surpreendentemente, a comida lá é muito mais aceitável do que nos restaurantes à la carte. As bebidas no buffet também precisam ser pedidas no balcão, pois não há a comodidade do serviço de garçons.

E é por isso que, para mim, o mais importante ao fazer um cruzeiro da MSC é NÃO frequentar os restaurantes incluídos. Recomendo fortemente reservar todas as refeições nos restaurantes de especialidade e já embarcar preparado para pagar à parte por essa escolha. A diferença de qualidade é gritante — tanto nos ingredientes quanto na execução dos pratos.

Nesta viagem, almoçamos duas vezes no Festival de Sushi, realizado no restaurante japonês Kaito Sushi Bar. A experiência incluía pratos quentes servidos à mesa, além de um buffet com variedade de sushis, temakis e pokes, com a possibilidade de solicitar peças personalizadas diretamente ao sushiman.

À noite, visitamos outros três restaurantes de especialidade, incluídos em um pacote no valor de 110 dólares por pessoa (crianças menores de 12 anos não pagam). O steakhouse Butcher’s Cut mantém um padrão consistente de qualidade em todos os navios da MSC que já conhecemos, assim como o Teppanyaki. Já o restaurante de frutos do mar Ocean Cay oferece uma experiência igualmente excelente, além de um ambiente belíssimo.

No Venchi 1878 Chocolate Bar, os gelatos também são cobrados à parte, mas os preços são bastante justos considerando a qualidade do sorvete. Para quem aprecia um bom café, também vale investir no café da Venchi. O valor adicional compensa, especialmente porque o café disponível no buffet deixa bastante a desejar.

6. Cada parada no Brasil tem uma logística própria (e você precisa saber disso antes)

Nosso cruzeiro com o MSC Seaview nesta temporada saiu de Salvador e passou por Maceió, Búzios e Santos. Este é um roteiro cuja logística de desembarque é bastante mais lenta do que em outros destinos por onde já navegamos. Por isso, é muito importante se informar bem com antecedência sobre as particularidades de cada um dos portos onde o seu navio vai desembarcar.

A parada em Maceió, por exemplo, exige que os passageiros peguem um ônibus (gratuito) entre o navio e o terminal de passageiros. Isso porque o porto de Maceió funciona como um porto comercial e, por questões de segurança, não permite que passageiros caminhem pelo local. Esse tempo de deslocamento com ônibus precisa ser levado em conta antes de planejar seu passeio em Maceió. Mesmo assim, achei que a parada aqui pode facilmente ser bem aproveitada. Logo na saída do navio, inúmeros operadores turísticos oferecem passeios para a Praia do Gunga e a Praia do Francês. Quem preferir não se deslocar para uma praia mais distante, não é má ideia ficar em Pajuçara ou Ponta Verde, já que Maceió tem possivelmente as melhores praias urbanas do Brasil.

Já a parada em Búzios é bastante problemática. O desembarque é feito com tenders, pois não há píer para atracar um navio desse porte, muito menos um terminal para desembarque de passageiros. A ordem de saída dos passageiros é então determinada pela distribuição de senhas logo no início da manhã. É preciso esperar até que a senha seja chamada pelos alto-falantes para somente então se dirigir à saída. O resultado disso é que não é possível planejar nenhum passeio por conta própria em Búzios, já que pode demorar até as 14h para que sua senha seja chamada. A solução para otimizar o tempo é reservar um dos passeios oferecidos pela própria MSC, pois estes têm horário fixo de saída, independentemente dos tenders.

7. O cruzeiro é no Brasil, mas os preços são internacionais

A moeda oficial a bordo dos cruzeiros o Brasil é sempre o dólar. Isso pode não ser novidade, mas vale reforçar: não espere encontrar os valores praticados no Brasil. Bebidas, restaurantes de especialidade, spa, gelateria, excursões…qualquer serviço extra cobrado a bordo terá preços muito mais alinhados aos padrões da Europa ou dos Estados Unidos.

Na temporada 2025/2026, por exemplo, drinks alcoólicos custam 11 dólares, cervejas 8 dólares, uma garrafa de água 2,90 e um refrigerante em lata 3,60. Não adianta converter — é melhor já embarcar preparado para essa realidade.

Por outro lado, a vantagem é que a MSC se adaptou ao mercado brasileiro e passou a oferecer a possibilidade de parcelar em até 10 vezes os gastos a bordo.

8. Esteja preparado para problemas técnicos ou falhas internas

Em janeiro de 2026, o MSC Seaview enfrentou um problema sério durante a navegação pelo Brasil quando uma tubulação ligada ao sistema de segurança contra incêndio rompeu. O resultado foi água invadindo corredores e cabines no Deck 10, com cerca de 40 cabines inundadas. Passageiros tiveram que deixar temporariamente seus quartos enquanto a equipe técnica controlava a situação.

No cruzeiro que fizemos, apenas 15 dias depois desse incidente, o navio sofreu uma infiltração devido a uma pancada de chuva intensa no final da tarde. Ao sair do porto de Búzios, a chuva se infiltrou pelo deck superior, transformando as escadas em verdadeiras cascatas. E o pior: diversos elevadores ficaram alagados e interditados até o final do cruzeiro (mas, por incrível que pareça, o navio sequer balançou com a tempestade).

Infelizmente, esse tipo de situação não é uma exclusividade do Brasil e está sujeito a acontecer em qualquer lugar do mundo. A diferença é que aqui temos o Código de Defesa do Consumidor, e qualquer prejuízo pode ser posteriormente acordado com a companhia de cruzeiros. Mesmo que o contrato da viagem mencione regras internacionais, se o embarque ocorreu no Brasil, o CDC costuma ser aplicado pelos tribunais brasileiros.

9. Cruzeiros longos e cruzeiros curtos atraem públicos diferentes

As companhias de cruzeiros que operam no Brasil oferecem, tradicionalmente, roteiros de sete noites, mas também, em algumas datas, é possível encontrar cruzeiros de três ou quatro noites – os chamados minicruzeiros. Essas viagens de curta duração funcionam como um test drive para um público que nunca viajou de cruzeiro e gostaria de ter uma primeira experiência. Também atraem um público que não está disposto a pagar os valores mais altos dos cruzeiros de sete noites.

Esse formato costuma atrair, de modo geral, um perfil mais festeiro: grupos de amigos, comemorações de aniversário e despedidas de solteiro são bastante comuns. Particularmente, não considero que a logística de um cruzeiro de três ou quatro noites compense, já que o tempo a bordo é muito limitado e mal permite aproveitar o navio com tranquilidade.

10. As viroses rolam soltas

Existe um comentário recorrente de que passageiros em cruzeiros no Brasil costumam contrair viroses, especialmente porque o verão brasileiro é marcado por alta circulação de vírus respiratórios. O navio, com grande concentração de pessoas em ambientes compartilhados, acaba se tornando um ambiente propício para a propagação dessas doenças.

Pude confirmar que isso é, sim, verdade, pois no meu terceiro dia de cruzeiro já estava gripada e com febre. Naturalmente, permaneci na cabine até me recuperar — até porque realmente não tinha condições de sair — mas sabemos que nem todos os passageiros doentes têm esse tipo de consideração com os demais.

Esse é um fator importante a considerar, sobretudo no período pós-Carnaval, quando a circulação de vírus tende a ser ainda maior. Levar uma farmacinha completa na bagagem é essencial para estar preparado para essa possibilidade.

Após essa primeira experiência, não posso afirmar que um cruzeiro no Brasil seja necessariamente mais desorganizado do que em outras regiões. Pelo contrário, existem pontos bastante positivos — como o entretenimento e o clube infantil — que considero, inclusive, superiores aos de muitos cruzeiros realizados fora do país. Ainda assim, é fundamental se informar bem sobre os aspectos mencionados e alinhar as expectativas antes do embarque. Isso faz toda a diferença para evitar frustrações e aproveitar a experiência da melhor forma possível.

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